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COVID-19 | Direito do Consumidor

05 de Maio de 2020

COVID-19 | Direito do Consumidor

DIREITO DO CONSUMIDOR
texto atualizado em 05/05 às 16h55

DIREITO DO CONSUMIDOR

A disseminação da pandemia de COVID-19 vem também impactando as relações de consumo. Em um primeiro momento, a crise teve relevante expressão no setor de transporte aéreo e de hotelaria, mas são cada vez mais visíveis os efeitos generalizados da pandemia em toda a cadeia de fornecimento e de consumo em diversos setores.

O decreto de calamidade pública no Brasil (Decreto Legislativo nº 06/2020) e as determinações de isolamento social e de quarentena exigem o fechamento de estabelecimentos comerciais e a suspensão da prestação de serviços e fornecimento de produtos, com exceção daqueles tidos por essenciais pelas autoridades.  

O enfrentamento dessa crise tem imposto obstáculos aos fornecedores no que tange à manutenção do fornecimento de produtos e serviços, ao cumprimento de contratos já celebrados e à disponibilização de alternativas aos consumidores para mitigar prejuízos.

De forma recorrente, as autoridades de consumo têm se posicionado sobre diversas matérias, com o objetivo de manter as relações de consumo equilibradas durante essa situação excepcional.

Nesse cenário, listamos abaixo os principais assuntos que têm sido objeto de atenção das autoridades:

  • Campanhas de recall

A Secretaria Nacional do Consumidor (SENACON) alertou as empresas para que continuem a reportar campanhas de Recall ao Departamento de Proteção do Consumidor (DPDC) na forma prevista na Portaria nº 618/2019, durante o período de calamidade pública.

A recomendação é que as empresas avaliem a possibilidade de apresentação das campanhas em duas etapas, evitando que os consumidores sejam estimulados a sair de casa. A autoridade também recomenda que as empresas avaliem a necessidade de readequação de campanhas antigas já em curso.

  • Interrupção de contratos de consumo

O PROCON-SP emitiu Nota Técnica sobre a interrupção dos contratos entre consumidor e fornecedor em razão da COVID-19. Segundo a autoridade, o cenário atual afastaria tanto a culpa quanto o nexo de causalidade em relação ao fornecedor, não se equiparando a uma situação de previsão empresarial (chamada “risco do negócio”).

A recomendação do PROCON-SP para os impasses decorrentes da crise é no sentido de que as partes estejam pautadas em espírito colaborativo e de boa-fé, de modo a se comprometerem a dialogar e encontrar saídas consensuais e que sejam razoáveis.

A autoridade sugere que os consumidores privilegiem a alternativa de conversão do serviço contratado em crédito para ser usufruído em momento posterior, o que, de acordo com a Nota Técnica, seria uma maneira de evitar a ruptura da totalidade dos contratos firmados.

O órgão ressalva aos fornecedores, por sua vez, que atuem orientados pelo princípio da boa-fé objetiva, com equilíbrio, bom senso e boa vontade, diante do cenário enfrentado por ambas as partes. Práticas abusivas ou de má-fé, segundo a Autoridade, não serão toleradas e ensejarão as medidas cabíveis.

O PROCON-SP pontuou, por fim, que maximizará seus esforços para que os consumidores possam exercer, pelo prazo de 12 (doze) meses após a superação da pandemia e encerrada a situação de calamidade pública, o direito de escolha entre (i) o reagendamento do serviço contratado; (ii) a substituição por outro produto ou serviço equivalente; e (iii) a utilização de crédito para ser consumido na mesma empresa. Todas as opções se dariam sem nenhum ônus ao consumidor e, no tocante aos contratos cujos serviços possam ser prestados à distância, a recomendação é para que seja mantida a execução do contrato. A Autoridade destacou, ainda, que se empenhará para buscar o direito ao reembolso dos valores pagos pelos consumidores, o que deverá se dar, contudo, após o fim da pandemia.

  • Concessão de 25% de redução para pagamento de multas administrativas

A SENACON publicou a Portaria nº 14/2020 concedendo a redução de 25% no valor de multas administrativas impostas pelo Órgão, caso a empresa opte pelo pagamento da penalidade em 30 (trinta) dias, renunciando ao direito de recorrer nas esferas administrativa e judicial, ou desistindo de eventuais recursos interpostos e pendentes de julgamento.

A intenção é obter recursos e destiná-los com mais celeridade ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), que poderá utilizá-los para ações de prevenção e tratamento da COVID-19, além de outros projetos.

O Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (CFDD) aprovou, por unanimidade, a destinação de R$ 18.600.000,00 (dezoito milhões e seiscentos mil reais) para a locação de leitos de UTI.

Em linha com a diretriz da SENACON, o Ministério Público em diversas localidades está recomendando e adotando na prática a destinação de recursos advindos de multas e condenações judiciais, antes destinados a fundos regionais de defesa do interesse do consumidor, para financiamento de projetos de saúde.

  • Determinação de cadastro no “Consumidor.gov.br”

A SENACON editou a Portaria nº 15/2020, determinando o cadastro de empresas na plataforma “Consumidor.gov.br” para viabilizar a mediação, via internet, dos conflitos de consumo notificados eletronicamente.

O cadastro deverá ser realizado por empresas com atuação nacional ou regional envolvendo serviços públicos e atividades essenciais, plataformas digitais de atendimento pela internet dedicadas ao transporte individual ou coletivo de passageiros, entrega de alimentos ou, ainda, à promoção, oferta ou venda de produtos próprios ou de terceiros ao consumidor final, e agentes econômicos listados entre as duzentas empresas mais reclamadas no Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor da SENACON (SINDEC), no ano de 2019. O prazo para o cadastro é de 30 (trinta) dias a partir da publicação da Portaria.

A obrigação se aplica somente às empresas que tenham, elas ou seus respectivos grupos econômicos, faturamento bruto mínimo de cem milhões de reais no último ano fiscal, média mensal igual ou superior a mil reclamações em seus canais de atendimento ao consumidor no último ano fiscal, “ou” sejam reclamadas em mais de quinhentos processos judiciais que discutam relações de consumo. Apesar da redação da Portaria, a SENACON informou publicamente que esses requisitos devem ser cumulativos para tornar o cadastro compulsório.

A Portaria prevê, ainda, a possibilidade de solicitação de dispensa do cadastro em razão do baixo volume de demandas ou quando o cadastramento não venha a facilitar a resolução de conflitos

As ferramentas virtuais de resolução de conflitos como o “Consumidor.gov.br” – conhecidas como “Online Dispute Resolution ODRs)” – unem tecnologia à prática jurídica auxiliando na prevenção de excessiva judicialização de controvérsias, bem como facilitam a comunicação entre as partes para a adequada resolução e tomada de decisões – seja por meio de negociação, conciliação e/ou mediação.

 

  • Manutenção de serviços essenciais

A Lei nº 13.979/2020, conhecida como Lei do Coronavírus, elenca serviços tidos como essenciais durante o período da pandemia, dentre os quais destacam-se os serviços de assistência à saúde, de telecomunicações, de distribuição de água, luz e gás, e de tratamento de esgoto.

A fim de garantir a prestação contínua de alguns desses serviços, inclusive diante de eventual situação de inadimplência do consumidor, diversas propostas legislativas têm sido apresentadas, como é o caso dos Projetos de Lei nºs 703/2020 e 783/2020.

Em âmbito estadual, iniciativas legislativas similares também têm sido identificadas, e alguns regramentos, tidos como inconstitucionais, têm sido impugnados judicialmente. É o caso, por exemplo, da Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE) em face da Lei nº 8.769/2020, do estado do Rio de Janeiro; e do mandado de segurança impetrado pela Associação Brasileira de Internet (ABRINT) contra o Decreto nº 609/2020, do estado do Pará.

Outras medidas judiciais para garantir a prestação de serviços essenciais durante a crise de saúde pública também foram propostas, sobretudo por PROCONs e Associações de Defesa do Consumidor.

Como exemplo, cita-se a demanda proposta pelo Instituto de Defesa do Consumidor (IDECON) contra a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Agência Nacional de Petróleo (ANP) e a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (ARSESP) visando impedir que os consumidores residenciais inadimplentes tenham suspenso o fornecimento dos serviços de água, luz, gás e telefonia.

Embora o pedido tenha sido concedido liminarmente na origem, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região cassou a liminar e permitiu a realização de cortes nos serviços de consumidores inadimplentes.

  • Prática de preços abusivos

A partir de reclamações de consumidores sobre o aumento abusivo de preços relacionados a produtos utilizados no combate ao coronavírus (como álcool gel e máscaras de prevenção), a SENACON emitiu a Nota Técnica nº 8/2020/CGEMM/DPDC/SENACON/MJ, como guia orientativo para o exame de abusividade na elevação dos preços de diversos produtos e serviços que podem ser afetados em razão da pandemia.

Embora a autoridade reconheça a possibilidade de alteração no valor de mercadorias e serviços como expressão da livre iniciativa e em decorrência da variação no volume de oferta e demanda, a SENACON ressalva que o Código de Defesa do Consumidor veda a elevação excessiva de preços de mercadorias ou produtos “sem justa causa”. Caso verificada a infração ao Código de Defesa do Consumidor, o que deverá ser analisado caso a caso, a empresa está sujeita a multa administrativa (que pode chegar a R$ 10 milhões).

A fim de avaliar a ocorrência de eventual alta excessiva nos preços de produtos e serviços, a SENACON tem contado com o apoio de entidades especializadas. É o caso, por exemplo, das parcerias firmadas (i) com a Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), que auxiliará nas investigações sobre a prática de preços irregulares em produtos agropecuários; (ii) com a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), que se comprometeu a estabelecer programas de cooperação para evitar aumentos abusivos de preços no setor, e (iii) com o CADE e a ANP para combate à variação excessiva do preço do gás.

No âmbito do comércio online, a SENACON firmou parceria com Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (“camara-e.net”) para a campanha “Juntos contra Ofertas Abusivas”. O projeto visa que os marketplaces trabalhem, inicialmente, com as empresas que fizeram ofertas abusivas no sentido de convencê-las a adequar esses preços e a cessar os abusos. Se isso não for possível, a reclamação será enviada à SENACON.

O PROCON e o Ministério Público, em diversas localidades, também têm efetuado fiscalizações constantes sobre a prática de preços abusivos em estabelecimentos comerciais e expedido recomendações aos fornecedores de setores estratégicos.

Na esfera judicial, medidas também têm sido adotadas para coibir a prática de preços tidos como exorbitantes e para promover a indenização da coletividade e dos consumidores afetados. É o caso, por exemplo, da ação civil pública proposta pela Associação Baiana de Defesa do Consumidor (ABDECON) contra o aumento dos preços de itens sanitários.

Na seara legislativa, tanto no Senado Federal como na Câmara dos Deputados, diversos Projetos de Lei (PLs) tratam da regulação dos preços durante a pandemia e da criminalização da prática, como é o caso dos PLs nºs 768/2020, 1.087/2020, 1.080/2020 e 734/2020.

  • Transporte Aéreo

A SENACON editou a Nota Técnica nº 2/2020 traçando diretrizes sobre cancelamento, devolução, alteração e reembolso de passagens aéreas. A autoridade orientou também os consumidores a resolverem suas situações específicas com as companhias aéreas através da plataforma http://www.consumidor.gov.br/.

Também foi editada pelo Governo Federal, em 18 de março de 2020, a Medida Provisória nº 925, que, em seu artigo 3º, estabelece que o prazo para reembolso de passagens aéreas será de doze meses, observadas as regras contratadas. O consumidor também pode optar pelo crédito para utilização no prazo de doze meses, ficando isento de penalidades contratuais. Ambas as possibilidades – reembolso ou crédito para utilização futura – são válidas para todos os contratos de transporte aéreo firmados até 31 de dezembro de 2020.

Após negociações, em 20 de março de 2020, a SENACON e o Ministério Público do Distrito Federal firmaram Termo de Ajustamento de Conduta com diversas empresas aéreas e a Associação Brasileira das Empresas Aéreas, estipulando a flexibilização das regras de remarcação, cancelamento e reembolso de passagens. Dentre os diversos pontos abordados no documento, restou acordada a possibilidade de (i) remarcação da passagem sem cobrança de tarifas, (ii) cancelamento de viagens, com respectivo crédito para utilização no prazo de até um ano, também sem a cobrança de taxas e penalidades. Caso o consumidor opte pelo cancelamento da viagem e pelo reembolso do valor da passagem, este poderá ser feito pela empresa aérea descontando-se as multas e taxas contratuais previstas nas regras tarifárias, no prazo de até 12 meses contados da solicitação do passageiro.

Em razão da situação de força maior, também foi dispensada a necessidade de assistência material por parte das empresas aéreas no caso de fechamento de fronteiras (Seção III da Resolução nº 400 da ANAC), comprometendo-se as empresas a envidar esforços para auxiliar o Ministério das Relações Exteriores em relação a esses passageiros. Houve, por fim, a suspensão da aplicação de multas da SENACON, de qualquer natureza, às empresas signatárias do acordo, pelo prazo de 180 (cento e oitenta) dias.

 

  • Remarcação e cancelamento de eventos

A SENACON e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) firmaram Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Associação Brasileira de Produtores de Eventos (ABRAPE) para regular a remarcação, o cancelamento e o reembolso relativos aos eventos que sofreram influência direta ou indireta da pandemia de COVID-19. O documento é válido para todas as empresas que são associadas à ABRAPE.

Ficou acordado entre as partes que, para todos os eventos originalmente agendados entre 11/03/2020 e 30/09/2020 e que foram ou venham a ser cancelados em razão da COVID-19, será concedido aos consumidores o direito à remarcação do evento, sem custo adicional, nos prazos estabelecidos no acordo.

Entre as medidas previstas no TAC, destaca-se que: (i) a nova data do evento deverá ser amplamente divulgada; (ii) o evento deverá conter as mesmas atrações ou outras do mesmo estilo musical e grandiosidade; (iii) os ingressos adquiridos para os eventos originais serão válidos para o novo evento, sem custo adicional. Na hipótese de o consumidor não poder comparecer na data do novo evento, o acordo prevê alternativamente a possibilidade de transferência do ingresso para um terceiro ou, ainda, de comprovar que não pode comparecer, o que ensejará reembolso. O consumidor poderá, ainda, trocar o ingresso por crédito com a Produtora para utilização em outro evento, ficando o consumidor responsável por eventuais complementações de valores aplicáveis.

Para os eventos cancelados que não forem remarcados no prazo previsto no TAC, e caso o consumidor não opte pela remarcação gratuita ou utilização do crédito acima mencionado, o documento prevê o reembolso de valores, que serão pagos no prazo de 06 (seis) meses a contar da confirmação do cancelamento definitivo do evento ou de sua remarcação, o que ocorrer primeiro. O valor poderá ser devolvido em até 06 (seis) parcelas, sendo permitido o desconto de 20% sobre o valor nominal do ingresso para cobrir despesas preliminares dos produtores. A restituição não incluirá eventual taxa de conveniência paga pelo consumidor.

  • Prestação de serviço de ensino

A SENACON editou a Nota Técnica nº 14/2020 que versa, em linhas gerais, sobre a suspensão das aulas presenciais em instituições de ensino. Foram sugeridas como soluções pela SENACON as aulas à distância ou o atraso das aulas presenciais para período após o término do isolamento.

Neste tema, a Secretaria deixou claro que nem o atraso na prestação das aulas nem a realização da modalidade à distância obrigam a instituição de ensino a reduzir os valores das mensalidades ou aceitar postergação desses pagamentos. Para a SENACON, as aulas serão posteriormente repostas, razão pela qual não há motivo para que os consumidores não continuem arcando normalmente com a mensalidade. Caso a quarentena impossibilite a prestação de serviços ainda este ano, a orientação é que os valores pagos durante este ano letivo sejam abatidos por meio de descontos ou bolsas para o ano que vem. Eventual rompimento de contrato de prestação de serviços educacionais deve gerar reembolso a ser pago apenas após o final da quarentena.

A SENACON reforçou novamente a ideia de evitar a judicialização dos conflitos, orientando que estes sejam resolvidos mediante acordos entre as partes.

Também sobre a matéria, o Comitê Nacional de Defesa dos Direitos Fundamentais do Consumidor (CNDD-FC) editou a Nota Técnica nº 02/2020, orientando consumidores e fornecedores da área da educação, bem como reforçando pontos já anteriormente abordados pela SENACON. A Nota Técnica destacou as obrigações e o dever de informação das instituições de ensino perante os alunos/responsáveis, inclusive em relação aos custos e sua eventual redução, nos contratos de Educação Infantil, Educação Básica e Ensino Superior. Abordou, ainda, a orientação a ser seguida nos contratos acessórios, como os relativos a atividades extracurriculares e alimentação.

Autoridades locais também têm abordado o tema para regular e fiscalizar, no âmbito municipal e estadual, as controvérsias. Nos estados de SP, RJ, MG e DF, os PROCONs vêm orientando os consumidores a solicitar a planilha de custos operacionais das instituições de ensino para apuração de eventual redução de despesas, a fim de que o desconto proporcional seja aplicado às mensalidades.

Há, ainda, o Projeto de Lei Estadual nº 295/2020, no estado de São Paulo, que propõe a redução de um terço (33,3%) no valor das mensalidades da rede privada de ensino superior durante o Plano de Contingência do Estado de São Paulo para Infecção Humana pelo novo Coronavírus - COVID-19. A mesma proporção de redução (1/3) é pretendida pela União Estadual dos Estudantes de São Paulo em Ação Coletiva proposta contra diversas instituições particulares de ensino superior do estado de São Paulo.

  • Prestação de serviços por academias e centros de atividade física

A SENACON editou a Nota Técnica nº 20/2020 a respeito da relação entre consumidores e academias ou centros de atividade física durante o período de isolamento. Além da recomendação de solução extrajudicial de conflitos, a SENACON apresenta como alternativas: (i) oferecer as aulas presenciais e/ou acesso aos equipamentos em período posterior, com a extensão da vigência do contrato; ou (ii) oferecer a prestação de aulas à distância, desde que essa opção seja expressamente aceita pelo consumidor e permitida pelo Conselho Regional de Educação Física.

Se a escolha for por oferecer as aulas posteriormente, as partes devem acordar uma forma de pagamento das mensalidades. Como sugestão da própria SENACON (i) o consumidor pode continuar pagando normalmente as mensalidades e, posteriormente, o contrato será estendido pelo tempo em que ficou suspenso, sem custos adicionais; ou (ii) os pagamentos poderiam ser interrompidos enquanto as aulas estiverem suspensas e depois retomados normalmente.

Sobre a eventual disponibilização de aulas à distância, a SENACON ponderou os riscos de tal prática, anotando ainda que esta modalidade altera a natureza do contrato de prestação de serviço, o que exige nova concordância do consumidor e ajustamento de preços entre as partes. De outro lado, ponderou que as academias não estão obrigadas a fornecer este conteúdo, seja através de sites ou de aplicativos, devendo acordar outras alternativas com os consumidores, se for o caso.

  • Preços de Medicamentos

O Governo Federal editou a Medida Provisória nº 933/2020, que suspendeu o reajuste anual de preços de medicamentos pelo período de 60 dias.

A Medida Provisória foi alvo de críticas pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) que expediu Nota Pública manifestando seu entendimento quanto à insuficiência da determinação.

Para o Instituto, como a suspensão alcança tão somente o reajuste do teto dos preços listados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), ela não impede a elevação dos preços dos medicamentos pelas indústrias, farmácias e distribuidores, ainda dentro da margem máxima estabelecida. Nesse cenário, o IDEC afirma já haver identificado aumento dos preços no mercado.

No âmbito do Poder Legislativo, tramita perante o Senado o Projeto de Lei nº 881/2020, que propõe o congelamento dos preços de medicamentos durante a vigência da calamidade pública.

  • Planos de saúde

A Agência Nacional de Saúde (ANS) tem adotado medidas para as operadoras de planos de saúde a fim de tutelar o interesse dos consumidores durante a pandemia. Entre as ações já promovidas estão a inclusão do exame para detecção do coronavírus no rol de procedimentos obrigatórios, a revisão dos prazos de atendimento a fim de priorizar o socorro a casos graves, a realização de atendimento de pacientes à distância e a viabilização da implementação da telessaúde.

A SENACON, por sua vez, expediu ofício à ANS e à Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) com indagações sobre a perspectiva de aumento de preços e de correção dos planos de saúde durante a pandemia.

Ações civis públicas também foram propostas pela Defensoria Pública dos Estados a fim de obrigar as operadoras de planos de saúde a garantir a internação de pacientes suspeitos ou com testes positivos, pelo tempo que se fizer necessário. Os pedidos liminares formulados nas ações foram deferidos pelo Poder Judiciário.

Além disso, algumas recomendações administrativas têm sido expedidas e demandas judiciais têm sido propostas com a finalidade de garantir leitos e respiradores nas unidades de saúde de todo o país.

  • Seguros

A FENACOR, federação nacional que congrega as corretoras de seguro, promoveu movimento para que a cláusula de exclusão por pandemia para os seguros de vida seja ignorada e a cobertura em caso de morte seja assegurada ao consumidor. Vinte e seis empresas, que juntas representam 95% do mercado de seguros, já aderiram ao movimento.

Ainda em relação aos seguros, o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) manifestou o recebimento de reclamações endereçadas por consumidores que tiveram dificuldade em obter coberturas contratadas via seguro de viagem.

A Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) afirma estar monitorando iniciativas por parte das seguradoras com vistas a garantir tanto os direitos dos consumidores quanto a sustentabilidade das empresas neste momento de crise.

  • Bancos

A Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) anunciou um pacote de medidas visando reduzir os impactos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia. Entre as medidas, destacam-se a possibilidade de prorrogação dos vencimentos de dívidas, renegociações de débitos e concessões de créditos.

A SENACON enviou à FEBRABAN pedido de esclarecimento sobre referido pacote anunciado, uma vez que reclamações teriam sido formuladas por consumidores relatando dificuldades em obter os benefícios anunciados, bem como alta nas taxas de juros.

  • Propostas legislativas

Além das iniciativas legislativas acima mencionadas, outras propostas também merecem destaque:

  1. Projeto de Lei nº 1.179/2020 - Regramento legislativo emergencial

O senador Antônio Anastasia apresentou o Projeto nº 1.179/2020, de caráter emergencial, o qual, apesar de não promover alteração nas leis já vigentes, suspende alguns dispositivos legais e altera pontos de Direito Privado.

O Projeto de Lei, que representa um esforço conjunto dos Poderes Legislativo e Judiciário, foi aprovado em 03/04 no Senado após diversas emendas, e aguarda votação na Câmara dos Deputados em regime de tramitação urgente.

Dentre as medidas contidas no Projeto aprovado no Senado, destacam-se: a prorrogação da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dadospara o dia 01/01/2021 – e das sanções administrativas nela previstas para o dia 01/08/2021; a suspensão dos prazos prescricionais; a definição da data de 20/03/2020 para fins de incidência de efeitos jurídicos quanto à pandemia; a previsão de que a pandemia equivale a caso fortuito/força maior; a vedação quanto à alegação de fortuito para dívidas anteriores à pandemia a vedação quanto à aplicação do Código de Defesa do Consumidor para relação entre empresas; e a suspensão até 30/10/2020 do prazo de arrependimento para compras de produtos perecíveis ou de consumo imediato, realizadas remotamente (por meio de ).

  1. Projeto de Lei nº 675/2020 - Suspensão da inclusão de novos inscritos em cadastros negativos

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei nº 675/2020, que suspende por 90 (noventa) dias a inclusão de novos inscritos em cadastros negativos em razão de inadimplência registrada após o dia 20/03 – a regra deverá ser aplicada retroativamente para remoção de casos incluídos indevidamente.

A suspensão tem como objetivo a garantia de acesso ao crédito a todos os atingidos pela pandemia, sendo autorizada à SENACON a eventual prorrogação do prazo enquanto durar a calamidade. Caberá ao Poder Executivo a regulamentação e fiscalização necessárias, ficando estabelecido que eventual multa aplicada deverá ser revertida em medidas de combate à COVID-19. O projeto segue para aprovação pelo Senado Federal.

  1. Projeto de Lei nº 2.021/2020 – Afastamento de cláusula de fidelidade em contratos de consumo

O Projeto de Lei nº 2.021/2020 foi apresentado pela senadora Mara Gabrilli com o objetivo de alterar o artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor e incluir disposição expressa para anular as cláusulas de fidelidade em contratos vigentes e firmados antes da decretação do estado de calamidade pública (em 20/03/2020).

  1. Projeto de Lei nº 2.242/2020 – Aumento do prazo para devolução de mercadoria

O Projeto de Lei nº 2.242/2020, apresentado pelo deputado Alexandre Frota, altera o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor para estender de 7 para 10 dias o prazo de arrependimento para o consumidor que contrate o fornecimento de produtos e serviços à distância, enquanto durar o estado de calamidade pública.

  1. Projeto de Lei nº 2.386/2020 – Suspensão dos prazos de garantia legal ou contratual

O Projeto de Lei nº 2.386/2020, apresentado pelo deputado Ivan Valente, suspende a contagem e o vencimento de prazos legais e contratuais de garantias para o consumidor exercer o direito de reclamar pelos vícios de produtos e serviços, durante o estado de calamidade pública.

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